Manchas de dengue: como identificar e quais cuidados ter?
A dengue continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública em países tropicais como o Brasil. Sazonalmente, os surtos dessa arbovirose geram preocupação não apenas pelos sintomas sistêmicos debilitantes, mas também pelas manifestações cutâneas que podem surgir. Uma das dúvidas mais frequentes nos consultórios e nas buscas online refere-se às manchas de dengue.
Muitos pacientes se perguntam se o surgimento de manchas vermelhas na pele indica gravidade, se é contagioso ou como diferenciar essas marcas de outras doenças virais, como Zika ou Chikungunya. Entender a fisiopatologia por trás dessas manifestações é essencial para o monitoramento adequado da evolução clínica.
Neste artigo, exploraremos a fundo o que são essas manchas, a diferença entre o exantema (rash) e as petéquias (sinais de sangramento), e quais são os protocolos de cuidado e tratamento da dengue recomendados pelas autoridades de saúde.
O que é a dengue?
A dengue é uma doença febril aguda, sistêmica e dinâmica, causada por um vírus do gênero Flavivirus. Existem quatro sorotipos distintos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). A infecção por um deles gera imunidade duradoura para aquele sorotipo específico, mas não para os outros, o que significa que uma pessoa pode contrair a doença até quatro vezes ao longo da vida.
A transmissão ocorre exclusivamente pela picada do mosquito Aedes aegypti infectado. Não há transmissão por contato direto de uma pessoa doente para outra. O mosquito, que se adapta facilmente ao ambiente urbano e se reproduz em água parada, é o elo que precisa ser combatido para a prevenção da dengue.
Ao ser picado, o vírus entra na corrente sanguínea e começa a se replicar, desencadeando uma resposta imunológica intensa. É essa "batalha" entre o sistema de defesa e o vírus que gera os sintomas clássicos: febre alta, dor retro-ocular (atrás dos olhos), mialgia (dores musculares) e, frequentemente, alterações dermatológicas.
O que são as Manchas de Dengue?
As manifestações cutâneas da dengue são comuns e podem aparecer em cerca de 50% dos casos. Tecnicamente chamadas de exantema maculopapular, essas manchas de dengue resultam de uma vasodilatação dérmica e de um processo inflamatório perivascular provocado pela resposta imune ao vírus.
Geralmente, essas manchas vermelhas na pele surgem em dois momentos distintos:
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Fase Inicial (Facies de Dengue): Logo nos primeiros dias (24 a 48 horas), pode ocorrer um rubor facial, no pescoço e tórax, muito semelhante a uma queimadura solar ou rubor por calor.
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Fase de Recuperação: Entre o 3º e o 6º dia de doença, surge o exantema clássico. Ele começa no tronco e se espalha centrifugamente para os membros (braços e pernas), podendo atingir palmas das mãos e plantas dos pés.
Ilhas Brancas em um Mar Vermelho
Uma característica clínica muito específica para identificar manchas de dengue é o padrão visual descrito na literatura médica como "ilhas brancas em um mar vermelho". A pele fica difusamente avermelhada (eritematosa), mas com pequenas áreas de pele saudável (branca) entremeadas. Ao pressionar a área vermelha com o dedo, ela "desaparece" ou clareia momentaneamente (digitopressão positiva), indicando que se trata de uma dilatação dos vasos e não de um sangramento.
Petéquias: O Sinal de Alerta para Dengue Grave
É crucial diferenciar o exantema (mancha benigna) das manifestações hemorrágicas. Enquanto as manchas vermelhas que somem ao toque são comuns, a presença de petéquias na pele exige atenção médica imediata.
As petéquias são pequenos pontos vermelhos ou arroxeados, do tamanho de uma cabeça de alfinete, que não clareiam quando pressionados. Elas indicam que há extravasamento de sangue dos capilares para a pele, sinalizando fragilidade vascular e, muitas vezes, plaquetopenia (queda do número de plaquetas).
A Prova do Laço
Para detectar essa fragilidade capilar precocemente, os médicos realizam a prova do laço. O procedimento consiste em inflar o manguito do aparelho de pressão no braço do paciente por alguns minutos. Se surgirem muitas petéquias na área abaixo do manguito, a prova é positiva, indicando um risco aumentado para dengue hemorrágica ou quadros de maior gravidade, exigindo hidratação venosa imediata.
Sinais de Alerta e Dengue Hemorrágica
A maioria dos casos de dengue evolui para a cura espontânea após o ciclo viral. No entanto, o monitoramento dos sinais de alarme é vital. A transição da fase febril para a fase crítica ocorre geralmente quando a febre baixa (defervescência).
Os sintomas de dengue grave incluem:
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Dor abdominal intensa e contínua.
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Vômitos persistentes.
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Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural).
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Sangramentos de mucosas (nariz, gengiva).
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Letargia ou irritabilidade.
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Hipotensão postural (queda de pressão ao levantar) e choque circulatório.
Nesses casos, a permeabilidade vascular aumenta drasticamente, levando à perda de plasma do sangue para os tecidos. Sem intervenção rápida, isso pode levar ao choque e falência de múltiplos órgãos. Portanto, qualquer alteração na coloração da pele que sugira sangramento (hematomas espontâneos ou petéquias) deve ser avaliada em ambiente hospitalar.
Diagnóstico e Tratamento da Dengue
O diagnóstico clínico é baseado nos sintomas da dengue relatados e no exame físico. Para confirmação, utilizam-se exames laboratoriais como o NS1 (detecção de antígeno viral nos primeiros dias) e a sorologia (IgM/IgG após o 6º dia). O hemograma é essencial para monitorar as plaquetas e o hematócrito (que indica se o sangue está ficando muito concentrado devido à perda de líquido).
Como tratar a dengue?
Não existe um antiviral específico para eliminar o vírus. O tratamento da dengue baseia-se no suporte à vida, focado em evitar a desidratação e controlar os sintomas.
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Hidratação Vigorosa: Esta é a pedra angular do tratamento. A ingestão de líquidos (água, soro caseiro, água de coco) deve ser constante e abundante. Em casos de sinais de alarme, a hidratação deve ser venosa.
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Repouso: O corpo precisa de energia para combater o vírus.
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Controle da Febre e Dor: Utilizam-se analgésicos e antitérmicos simples, como dipirona ou paracetamol, sempre sob orientação médica.
O Perigo da Automedicação
É estritamente proibido o uso de medicamentos à base de ácido acetilsalicílico (Aspirina) e anti-inflamatórios não esteroides (como ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida) em casos suspeitos de dengue. Essas substâncias interferem na coagulação sanguínea e podem agravar o risco de sangramentos e dengue hemorrágica.
Prevenção e Controle do Vetor
Como não há tratamento curativo específico, a prevenção da dengue continua sendo a melhor estratégia. A única forma de interromper a cadeia de transmissão é combatendo o mosquito.
Isso exige um esforço coletivo para eliminar criadouros de mosquitos:
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Verificar semanalmente vasos de plantas, calhas e ralos.
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Manter caixas d'água vedadas.
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Não acumular lixo ou pneus em áreas descobertas.
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Limpar bebedouros de animais com bucha.
Além do controle ambiental, a proteção individual é importante, especialmente em áreas de surto. O uso de repelentes corporais eficazes (com Icaridina ou DEET), telas em janelas e roupas que cubram a maior parte do corpo ajudam a reduzir o risco de picadas.
Diferenciando Dengue, Zika e Chikungunya
As manchas vermelhas na pele são comuns às três arboviroses, mas existem nuances:
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Dengue: Febre alta é o sintoma predominante. As dores musculares são intensas. As manchas aparecem geralmente após o 3º dia.
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Zika: O exantema (manchas) surge precocemente (1º ou 2º dia), muitas vezes antes mesmo da febre (que é baixa). A coceira é muito intensa e a conjuntivite (olhos vermelhos sem secreção) é comum.
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Chikungunya: O marco principal é a dor articular (nas juntas) excruciante e debilitante. As manchas podem surgir, mas o inchaço nas articulações é o sinal mais evidente.
Cuidados com a Pele Durante e Após a Infecção
Durante a fase ativa da doença, a pele pode ficar sensível, ressecada e pruriginosa.
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Higiene: Banhos mornos ou frios são indicados para aliviar a febre e a coceira. Evite banhos muito quentes, que aumentam a vasodilatação e o prurido.
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Hidratação: Manter a pele hidratada ajuda a recuperar a barreira cutânea e alivia o desconforto das manchas de dengue.
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Proteção Solar: Se houver exposição ao sol durante a fase de exantema, pode haver risco de hiperpigmentação pós-inflamatória (manchas escuras residuais). Por isso, embora o paciente deva ficar em repouso (geralmente indoor), se precisar sair, a proteção física e química é recomendada.
Vigilância Constante e Conhecimento como Defesa
Compreender o ciclo da doença e reconhecer as manchas de dengue não serve apenas para aliviar a ansiedade do paciente, mas funciona como um termômetro da evolução clínica. Diferenciar um rash viral comum de petéquias hemorrágicas pode ser o fator determinante para buscar ajuda hospitalar no momento certo.
Embora as manchas na pele causem desconforto estético e físico (coceira), elas tendem a desaparecer sem deixar sequelas permanentes à medida que o sistema imunológico vence o vírus. O foco principal deve permanecer na hidratação, no repouso e na monitorização rigorosa dos sinais de alerta. A luta contra a dengue é diária e começa fora de casa, na eliminação do mosquito, mas o cuidado com a saúde e com a pele exige atenção integral e conhecimento científico.
Referências Científicas
- Pourzangiabadi, M., et al. (2025). Dengue virus: etiology, epidemiology, pathobiology, and developments in diagnosis and control: a comprehensive review. Microbial pathogenesis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39732271/
- Watanabe, K., et al. (2016). Dengue haemorrhagic fever with Roth's spot. QJM: an international journal of medicine. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26642885/
- Sirohi, D., & Kuhn, R. J. (2017). Zika virus structure, maturation, and receptors. The journal of infectious diseases. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29267925/
- Vairo, F., et al. (2019). Chikungunya: epidemiology, pathogenesis, clinical features, management, and prevention. Infectious disease clinics of north america. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31668189/
Texto por: Dr. Maurizio Pupo, farmacêutico e especialista em cosmetologia e Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Ada Tina. CRF-SP: 13.328